no dia em que vi meu amor
[pela primeira vez
ela falava ao telefone com outra pessoa
isso foi em agosto de 1989
o clima estava seco
e eu sofria com amigdalite
então eu disse a ela em tom de gracejo
que os antibióticos é que me mantinham vivo
ela riu… riu aquele sorriso ensolarado
que me iluminaria os dias e as noites desde então
pouco importa quem estava do outro lado da linha
aquele era o nosso timing programado
há tempo de atrasar, tempo de encontrar
tempo de parar, tempo de avançar
não, Yehuda Amichai, meu poeta incontornável
você estava errado quanto ao Eclesiastes
existe sim um tempo pra tudo
nós é que não conseguimos (nem precisamos) entender
apenas aceitar, apenas calar
pelo menos enquanto tivermos os pés presos ao chão
O que a formiga entende do mundo?
além do caminho estreito em que carrega pedaços
[de folhas verdes
eu entendo o mundo bem melhor do que a formiga
os seres que pairam acima de mim
entendem o mundo bem melhor do que eu
aliás, de que mundo estamos falando?
desse planeta-grão chamado Terra
ou de todas as galáxias, nebulosas, buracos negros
das luas de júpiter, dos micróbios de plutão
o macro e o micro se perdem e se encontram
você já reparou como as borboletas são simétricas?
suas asas, antenas, contornos são exatamente iguais
veja como a natureza está cheia de simetrias, regularidades, proporções
[números, ciclos, repetições
tudo é cíclico, morte-vida, sombra-luz, guerra-paz
por isso é preciso acostumar-se a perder
a perda é arte, perda é sabedoria
como escreveu Elizabeth Bishop
perder objetos, frases, fases, coisas, pessoas
perder pra recomeçar
perder pra evolucionar
perder tudo é não perder nada
pois nada escapa à verdade universal
a puríssima e inexorável verdade
superior ao homem e as suas grosseiras percepções
superior à franja de tempo em que vivemos
ó fulô, ó fulô
sabe a túnica inconsútil que vestiu Jorge de Lima?
foi ela que escondeu o meu amor.
Goiânia, junho/2023

O planeta- grão chamado Terra…Lindo seu poema, Luciano.
Bjs
Beleza, Luciano. A Sabedoria de Poetizar a Própria Perda.
A poesia nos salva, Luciano.
Obrigada por lembrar.