Juventude é
A arte
De fazer arte
Sem ser artista
Juventude é
Viver o presente
Pleno de agitação
E de culpas ausente
Juventude é
Nascer sem ontem
E esquecer amanhã
Tudo que lhe convém
Juventude é
Fase da idade
Que não entristece
Se carrega saudade
Juventude é
Aquele deleite
Iniciado pela queda
Do último dente de leite
Juventude é
O que permanece
Da infância à senilidade
Se ama, odeia ou desconhece
Juventude é
Culpar-se jamais
Por todos desatinos
Não importam quais
Juventude é
Aquela ambiguidade
Que sempre aborrece
Entre infância e maioridade
Juventude é
Manhã consumida
Naquela infinita preguiça
Acordando da noite dormida
Juventude é
Caminhar sem receio
De estômago bem cheio
Livre de qualquer inquietude
Juventude é
O choro pelo soco no peito
Ser só carícia de irmão perfeito
Nunca assunto jurídico de direito
Juventude é
O fato constatado
Ser tão útil conselho dado
Como fumaça de papel queimado
Juventude é
Vaidade sobre sagacidade
Obedecer a lei da gravidade:
Inversamente proporcional à idade
Juventude é
Aquele estado
Em que aprendizado
Serve a tudo e a nada
Juventude é
Humilhar adulto
Para se sentir estulto
Pela lentidão em aprender
Juventude é
Rir-se do idoso curvo
Sem perceber maldade
Pois à compaixão é surdo
Juventude é
Demonstrar que ordem
Não precisa ser cumprida:
Basta fingir foi bem ouvida
Juventude é
Pelo mal-educado
Não mais ser provocado
Depois de havê-lo surrado
Juventude é
Morder-se de ódio
Se seu clube dileto
Perde para o desafeto
Juventude é
Fingir-se castigado
Temendo o resultado
Garantindo não reprisado
Juventude é
Consumir hoje
Prazeres de ontem
Mais todos que pôde
Juventude é
A mentira primeira
Que sempre antecede
Todas da existência inteira
Juventude é
Sempre objetar
Se em causa própria
Querem impedi-lo julgar
Juventude é
Chorar amargurado
Sofrendo inconsolado
Incidente pueril frustrado
Juventude é
Fazer-se acabrunhado
Pelo fedor daquele cigarro
Descoberto escondido fumado
Juventude é
Conseguir explicar
Travesseiro vomitado
Após porre consumado
Juventude é
Na rede, espraiado
Sorver livro pornográfico
Fingindo ler um geográfico
Juventude é
Chantagear o pai
Pego mirando sorrateiro
Da doméstica o peito inteiro
Juventude é
A cobiça
Pelo sexo oposto
Sedento por conquista
Juventude é
A iniciação sexual
Trancado no banheiro
Masturbando-se dia inteiro
Juventude é
Sexo praticado
Antes de casado
Julgar ser pecado
Juventude é
Segredo guardado
Do hímen que rompido
Nunca mais é esquecido
Juventude é
Temer conceder
Que foi a primeira vez
E acha não ser gravidez
Juventude é
Aula cabulada
Em seção de cinema
Beijando a namorada
Juventude é
Não desconfiar
Do amigo de jornada
Roubando-lhe a amada
Juventude é
Inveja que o afeta
Por tudo que atesta
No rival que detesta
Juventude é
Covardia frente a leão
Qual matilha de chacal
Se compartilha assédio imoral
Juventude é
Calvo estéril
Ainda imberbe
De cabelo fértil
Juventude é
O tempo passado
Que não mais existe
E só serve se lembrado
Juventude é
O lamento
Por não ter feito
O que crê seu direito
Juventude é
Atingir a maturidade
Chegando finalmente
A tempo inconsequente
Juventude é
O distante momento
De perene esquecimento
Com cérebro em derretimento
Juventude é
Prazer imensurável
Antes do indesejável
Imprevisto fim miserável
Juventude é
Viver entediado
Com coronária hígida
Até o óbito ser atestado

Viva juventude!
Sylvia.
Obrigado.
Falta-me agora escrever sobre senilidade, mas como sou um jovem de apenas 86 anos não tenho ainda um minimo de experiência no assunto; quando tiver, meu cérebro estará derretido e não mais conseguirei produzir qualquer relato digno de mérito. Para os que me leriam será um conforto sem precedentes saber de antemão que foram poupados.
Eder Quintão
Nossa, que bacana, adorei. Com certeza você não pode escrever sobre senilidade rsrs
Adorei especialmente o trecho:
Juventude é
Aquela ambiguidade
Que sempre aborrece
Entre infância e maioridade
Disse tudo para mim.
Sandra: muito simpático seu comentário. Agradeço
Eder Quintão