Assim que me calei,
uma voz chegou aos meus ouvidos:
“Se te tornas isto, serás aquilo”.
RUMI
Leio suas antigas anotações como um explorador de território devastado. Em traços difusos, busco vestígios que expliquem o ocorrido, talvez seja possível reverter o quadro atual. Em sua escrita, não transparece a frustação, no entanto, o que ela previra, não aconteceu. Seus desejos foram barrados por comportas jamais abertas. O paraíso projetado não seria alcançado, mas ela não sabia disso e a cada dia plantava sonhos que não germinariam. Dormia abraçada à revista com a reportagem sobre o Taj Mahal. Iria passear naqueles jardins e sentir o pulsar das pedras preciosas no mármore branco, porque lá, naquele centro profundo de afeto candente, o amor é eterno.
Sem decifrar trombetas de apocalipse, olhava com confiança rumo ao futuro. Procurou se afastar de tudo que lhe parecia ultrajante. Atenta à elegância, em festas, mantinha o chapéu sempre preso ao coque do cabelo. Jamais palavras obscenas para alguém, por pior que fosse a ofensa, nem comentários sobre deficiência física ou doenças incuráveis. A vida como um tabuleiro de xadrez, cada peça sendo movida na crença da vitória ao final.
Tento capturar o momento em que se deu o revés. Quando a desesperança ofuscou sonhos? Soube que um dia, ao subir a escadaria da igreja para o casamento da amiga, seu chapéu fora levado pelo vento e seguiu sem rumo, nunca mais foi encontrado. Incidente banal, mas que poderia ter desencadeado nela certo temor por armadilhas imprecisas. A campainha da casa toca, ela não atende sem antes observar por alguma fresta. Ao toque do telefone, reluta. A correspondência é lida com tremor nas mãos. Só por instantes as janelas permanecem abertas. As idas à igreja do bairro tornam-se mais frequentes. Paredes e móveis da casa passam a ser adornados por santos de proteção.
Sob o mesmo teto, convivemos por longo tempo, cada qual ao seu jeito traçamos nossas formas de romper horizontes. No traçado dela, despontaria a trajetória que se acreditava de toda mulher – casamento com um bom moço e criação de filhos saudáveis. Projeto de vida que exigiu esforço e dedicação, haveria de cuidar de tudo, então, sempre novos cursos: culinária, corte e costura, decoração. Não se contentava com o básico, buscando aprimoramento tornou-se confeiteira de mão cheia. Bolos recheados com frutas e cremes, cobertos por florzinhas de massa colorida, docinhos de vários tipos encantavam nossas festas. Nunca casou. Desse tipo de trajetória, procurei distância. Não sem muitos conflitos e estranhamentos. Nossa mãe sempre ameaçava cortar minhas asas – essa menina tem mania de liberdade, dizia.
Hoje, sinto a memória de minha irmã povoada por mortos, desastres, rompimentos, paisagens inóspitas, como se não houvesse nenhuma boa lembrança para encontrar consolo. Que voz é essa que dita regras do seu viver? Desconheço. Também a ciência não é capaz de respostas. Nesse labirinto escuro no qual habita, percebo que a entrada, por vezes, é aberta pela presença de alguma criança, mesmo que essa a olhe com certo estranhamento; no riso, no gesto infantil o alento, a alegria. Talvez se projete em seu tempo de brincar, por mais longínquo que esteja. Por segundos, sustenta seu olhar na inocência, para logo em seguida recolher-se em sua caverna de sonhos adormecidos. Nela permanece ausente de si, do mundo ao seu redor.
Quanto a mim, tateio sombras na escuridão de sua caverna.

Lourdes, que belo texto para tão dura realidade….
Desejo que a escrita e a reflexão nela contida sublimem a dor dessa experiência que a vida lhe impôs.
Coragem
Lourdes, uau! Fiquei sem ar. Quanta beleza para contar algo tão dolorido. Beijo grande
Lourdes, gostei muito do seu conto. Além de muito bem escrito, ele me causou um estranhamento digno dos grandes textos literários. Não saber exatamente o que afligia essa mulher foi fundamental trazer uma certa sedução ao conto. Parabéns!
Oi Lourdes, que lindo!!! As lembranças, as vivencias, significados que levam na alma, agora e eternamente.
Lourdes.vc tornou um pouco real o interior de pessoa q experimentou, pelo texto, amarguras, alegrias e sonhos não realizados.
A meu ver o texto reflete sentimentos de tristeza e dor que pensamos existir no íntimo de um ser humano. Penso, também, que o assim atingido pode se encontrar num processo de evolução espiritual, uma vez que a ciência não encontrou até o momento uma explicação para esse estado psíquico
Lourdes, seu lindo e emocionado texto é simplesmente pungente. A vida, tão maravilhosa e cheia de sonhos e esperanças, por vezes mostra seu lado cruel. Mas escritoras como você conseguem transformá-lo em Arte.