Concentração de luz.
Infinitas são as maneiras da luz recair, com precisão, em um determinado ponto para focar uma mensagem.
Quando um visitante do Museu Judaico em Berlim é guiado para dentro de um cubículo de concreto onde um mínimo foco de luz solitário e certeiro recai sobre o piso, impossível ele não refletir sobre o último momento de vida de milhares de pessoas exterminadas nas câmaras de gás dos campos de concentração da Segunda Guerra.
A concentração de luz, fixa, projetada no chão de concreto, trespassa a mensagem da barbárie. Um arrepio mortal!
O filme, O Brutalista, mantém do começo ao fim – apesar das suas três horas e meias de duração, que passam despercebidas – o foco de luz concentrado em pontos fulcrais para contar sua história. A mais pungente é a devastação que causa a atrocidade cometida contra a alma de um imigrante.
O filme traz, nas suas belíssimas entrelinhas, uma sociedade que, apesar de abrir sua nação a milhares de imigrantes judeus, não teve a educação necessária para acolher e respeitar a mente criadora e educada de um homem torturado pela realidade dos fatos, egresso de um campo de concentração.
O filme pode ser lido como um romance literário cujos capítulos se traduzem em fortes cortes a cada novo episódio, ou seja, a cada mensagem do filme destinado ao leitor.
Há algumas mensagens em foco que, ao meu ver, não deveriam ser esquecidas nos dias que hoje correm. Uma delas, aborda o regime nazista desvendado apenas pelo sofrimento indelével da brutalidade. Ela não deseja que o espectador assista a violência física que possa resultar. Este detalhe torna, o que poderia ser inumano, num filme “leve” em certo sentido. (Aqui é necessário mencionar o outro ganhador, o filme Ainda Estou Aqui, porque denuncia, – com igual arte, – o regime ditatorial ocorrido no Brasil).
Ambos os filmes sublinham que a arte, hoje violentada pelo retrato “pesado” da morte gratuita, do embate entre monstros sem pé nem cabeça e os humanos , além das doenças do nosso tempo, jamais poderão ser superados pela sensibilidade da alma à dor.
(O Brutalista não poderia ter ganho o Oscar de melhor filme, pois em uma das cenas, os protagonistas mencionam dramaticamente: “This is a rotten country” ou “Este país (EUA) é um país podre”)
O enredo, de cabo a rabo, traduz a brutalidade em que se encontra a alma e o coração profundamente deprimidos e machucados sem retorno para qualquer momento próximo à paz. É a brutalidade explícita que a guerra inflige a qualquer um que por ela passou.
O filme traz à luz os mais satânicos instintos e estados de alma que podem permear o Homem e a História, explicitado no profundo desdém que o milionário americano nutre à mente criativa e brilhante de um arquiteto, judeu, húngaro, imigrante nos Estados Unidos.
A câmara, num jogo sutilíssimo de expressões, captura a angústia do visionário imigrante no magnífico desempenho de Adrien Brody. O estado da sua alma é dilacerante e demonstrado sem piedade. Seu sofrer é isolado e o recado fica belamente dado.
O enredo não faz uso de subterfúgios nem meias verdades. Sexo e droga são tratados sem obviedade: o sentido brutal da dor se exprime perante a impotência frente ao sexo e a droga, frutos do trauma de guerra do arquiteto. Focam na poderosa carga do sofrimento lúcido dos envolvidos, a transparência real da verdade.
Em um jogo delicado de claro-escuro, impenetrável, ocorre um estupro, precisamente ali necessário para nos fazer entender que não é impossível destruir por completo outro ser humano. É, na minha ótica, a cena mais esclarecedora sobre o sentido que o diretor quis dar ao nomear o filme O Brutalista!
É o momento em que o intelecto digno e a resistência ao infortúnio do arquiteto para sobreviver ao passado são quebrados pela mediocridade e inveja do estuprador, brutalmente. Ali é o momento do sentido da arte e beleza sendo aniquiladas com crueldade. Deduzi que a violência intrínseca é terrivelmente humana!
O Brutalista é um filme de natureza conturbada no qual nada do que é humano fica de fora.
É possível ver o filme por conta do lugar de onde é tratada a percepção do belo, a pureza das formas, a arquitetura dos vazios, o desespero do ser genial.
A conferir o enfoque dado à avareza, à amizade, ao preconceito apenas assoprado, e o fazer caridade em benefício próprio.
A conferir, igualmente, o sentido dado às demandas das religiões e à ênfase aos hábitos e costumes de culturas tão diferentes como a educação intelectual da Europa se comparada com a Americana no mesmo período pós-guerra.
Neste filme, transitamos no sentido mais preciso que pode ser dado à brutalidade com requintes de elegância e cultura de mentes corrompidas pelo poder e dinheiro.
Como contar o sofrimento?
Você que leu este comentário que fiz sobre o filme O Brutalista, recomendo assisti-lo no cinema, pois ele é monumental na forma e no conteúdo.
Termino dando asas ao meu ceticismo: nada do que consta no enredo deste filme é mentira!
O Brutalista
3h 34min /Drama
Direção: Brady Corbet
Roteiro Brady Corbet, Mona Fastvold
Elenco: Adrien Brody, Felicity Jones, Guy Pearce
Título original The Brutalist
Agora quero realmente ver o filme. Que análise, Bettina! Lembrei do impacto que tive no museu judaico em Berlim. Vertigem e finitude.
Obrigada
COMENTÁRIO (IMPAGÁVEL!) DE BETTINA LENCI NAS TROCAS DE EMAIL DO GRUPO DE ESCRITORES DO CLUBE
Uma bengala não se esquece mas caso a esqueçamos, já não poderemos mais andar!
Já guardei a minha para dias piores do que estes que ,agora, já sinto bem mauzinhas nas pernas.
Aeroportos entao… esteiras rolantes. Na hora de retirar a
bagagem da roda, sou obrigada a pedir para um jovem e ou jovem senhor, – sempre na esperança
que me dê um sorriso de compaixão, – verdade que nunca recebi um nao!
Mas a bengala serve, pensando bem, para enganchar a alça da mala e puxá-la para si!
Um conselho: quando forem comprar uma bengala, por necessidade e ou estética, comprem
uma elegante como nos ensina Adilia, mesmo se ainda nao tenha chegado a hora de esquecê-la.
Comprem com antecedência para nao esquecer na hora da necessidade. Compre-a de livre e espontânea
vontade antes que algum filho ou cuidadora o faça por voce, fazendo- o lembrar que o tempo passa!
Bons passeios e boa viagem!
bj