Clube dos Escritores 50+ Bettina Lenci #filmesparamaisvelhos Brutalista

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O Brutalista, indicação de Bettina Lenci (cuidado, contém spoilers!)

Concentração de luz.

Infinitas são as maneiras da luz recair, com precisão, em um determinado ponto para focar uma mensagem.

Quando um visitante do Museu Judaico em Berlim é guiado para dentro de um cubículo de concreto onde um mínimo foco de luz solitário e certeiro recai sobre o piso, impossível ele não refletir sobre o último momento de vida de milhares de pessoas exterminadas nas câmaras de gás dos campos de concentração da Segunda Guerra. 

A concentração de luz, fixa, projetada no chão de concreto, trespassa a mensagem da barbárie. Um arrepio mortal!

O filme, O Brutalista, mantém do começo ao fim – apesar das suas três horas e meias de duração, que passam despercebidas – o foco de luz concentrado em pontos fulcrais para contar sua história. A mais pungente é a devastação que causa a atrocidade cometida contra a alma de um imigrante.

O filme traz, nas suas belíssimas entrelinhas, uma sociedade que, apesar de abrir sua nação a milhares de imigrantes judeus, não teve a educação necessária para acolher e respeitar a mente criadora e educada de um homem torturado pela realidade dos fatos, egresso de um campo de concentração.

O filme pode ser lido como um romance literário cujos capítulos se traduzem em fortes cortes a cada novo episódio, ou seja, a cada mensagem do filme destinado ao leitor.

Há algumas mensagens em foco que, ao meu ver, não deveriam ser esquecidas nos dias que hoje correm. Uma delas, aborda o regime nazista desvendado apenas pelo sofrimento indelével da brutalidade. Ela não deseja que o espectador assista a violência física que possa resultar. Este detalhe torna, o que poderia ser inumano, num filme “leve” em certo sentido. (Aqui é necessário mencionar o outro ganhador, o filme Ainda Estou Aqui, porque denuncia, – com igual arte, – o regime ditatorial ocorrido no Brasil). 

Ambos os filmes sublinham que a arte, hoje violentada pelo retrato “pesado” da morte gratuita, do embate entre monstros sem pé nem cabeça e os humanos , além das doenças do nosso tempo,  jamais poderão  ser  superados pela sensibilidade da alma à dor. 

(O Brutalista não poderia ter ganho o Oscar de melhor filme, pois em uma das cenas, os protagonistas mencionam dramaticamente: “This is a rotten country” ou “Este país (EUA) é um país podre”)

O enredo, de cabo a rabo, traduz a brutalidade em que se encontra a alma e o coração profundamente deprimidos e machucados sem retorno para qualquer momento próximo à paz. É a brutalidade explícita que a guerra inflige a qualquer um que por ela passou. 

O filme traz à luz os mais satânicos instintos e estados de alma que podem permear o Homem e a História, explicitado no profundo desdém que o milionário americano nutre à mente criativa e brilhante de um arquiteto, judeu, húngaro, imigrante nos Estados Unidos. 

A câmara, num jogo sutilíssimo de expressões, captura a angústia do visionário imigrante no magnífico desempenho de Adrien Brody. O estado da sua alma é dilacerante e demonstrado sem piedade. Seu sofrer é isolado e o recado fica belamente dado. 

 O enredo não faz uso de subterfúgios nem meias verdades. Sexo e droga são tratados sem obviedade:  o sentido brutal da dor se exprime perante a impotência frente ao sexo e a droga, frutos do trauma de guerra do arquiteto. Focam na poderosa carga do sofrimento lúcido dos envolvidos, a transparência real da verdade.  

Em um jogo delicado de claro-escuro, impenetrável, ocorre um estupro, precisamente ali necessário para nos fazer entender que não é impossível destruir por completo outro ser humano. É, na minha ótica, a cena mais esclarecedora sobre o sentido que o diretor quis dar ao nomear o filme O Brutalista

É o momento em que o intelecto digno e a resistência ao infortúnio do arquiteto para sobreviver ao passado são quebrados pela mediocridade e inveja do estuprador, brutalmente.  Ali é o momento do sentido da arte e beleza sendo aniquiladas com crueldade. Deduzi que a violência intrínseca é terrivelmente humana!  

O Brutalista é um filme de natureza conturbada no qual nada do que é humano fica de fora.  

É possível ver o filme por conta do lugar de onde é tratada a percepção do belo, a pureza das formas, a arquitetura dos vazios, o desespero do ser genial. 

A conferir o enfoque dado à avareza, à amizade, ao preconceito apenas assoprado, e o fazer caridade em benefício próprio.  

A conferir, igualmente, o sentido dado às demandas das religiões e à ênfase aos hábitos e costumes de culturas tão diferentes como a educação intelectual da Europa se comparada com a Americana no mesmo período pós-guerra. 

Neste filme, transitamos no sentido mais preciso que pode ser dado à brutalidade com requintes de elegância e cultura de mentes corrompidas pelo poder e dinheiro.    

Como contar o sofrimento? 

Você que leu este comentário que fiz sobre o filme O Brutalista, recomendo assisti-lo no cinema, pois ele é monumental na forma e no conteúdo.  

Termino dando asas ao meu ceticismo: nada do que consta no enredo deste filme é mentira!  

O Brutalista
3h 34min /Drama
Direção: Brady Corbet 
Roteiro Brady Corbet, Mona Fastvold
Elenco: Adrien Brody, Felicity Jones, Guy Pearce
Título original The Brutalist

2 comentários

  1. Agora quero realmente ver o filme. Que análise, Bettina! Lembrei do impacto que tive no museu judaico em Berlim. Vertigem e finitude.
    Obrigada

  2. COMENTÁRIO (IMPAGÁVEL!) DE BETTINA LENCI NAS TROCAS DE EMAIL DO GRUPO DE ESCRITORES DO CLUBE

    Uma bengala não se esquece mas caso a esqueçamos, já não poderemos mais andar!

    Já guardei a minha para dias piores do que estes que ,agora, já sinto bem mauzinhas nas pernas.
    Aeroportos entao… esteiras rolantes. Na hora de retirar a
    bagagem da roda, sou obrigada a pedir para um jovem e ou jovem senhor, – sempre na esperança
    que me dê um sorriso de compaixão, – verdade que nunca recebi um nao!
    Mas a bengala serve, pensando bem, para enganchar a alça da mala e puxá-la para si!

    Um conselho: quando forem comprar uma bengala, por necessidade e ou estética, comprem
    uma elegante como nos ensina Adilia, mesmo se ainda nao tenha chegado a hora de esquecê-la.
    Comprem com antecedência para nao esquecer na hora da necessidade. Compre-a de livre e espontânea
    vontade antes que algum filho ou cuidadora o faça por voce, fazendo- o lembrar que o tempo passa!
    Bons passeios e boa viagem!
    bj

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