Eu sempre gostei de me esconder. Nos lugares mais prováveis. Embaixo da cama, atrás da porta, atrás da cortina. Era tão fácil de me achar.
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Eu sempre gostei de me esconder. Nos lugares mais prováveis. Embaixo da cama, atrás da porta, atrás da cortina. Era tão fácil de me achar.
Continuar lendoPela pinguela oscilante sobre águas turvas, o menino se equilibra carregando o balde. A mãe espera. Vem balançando, com o balde na cabeça. Olhos abertos direto no lodo. A mãe espera. Ele respira descompassado. O lodo ondeia por baixo da pinguela. A mãe espera. O dorso do bicho raspa na pinguela.
Continuar lendoAquele era o décimo cigarro. Se continuasse assim morreria de câncer antes do filho se formar. Só mais esse, decretou, enquanto olhava a tela em branco do computador. Escreveria sobre a falta de inspiração, embora isso já tenha sido enredo de filme, de livro, de peça. Acabara de ler Infância do Graciliano Ramos. Estava humilhada. Precisava encontrar a sua voz.
Continuar lendo– Há quantos anos nos conhecemos?
– Vixe! Não sei.
– Pensa…
– Desde 1972… faz 45 anos.
– Já testemunhou dois casamentos meus e muitas outras coisas.
– Fui eu quem armou um deles.
Não era muito dinheiro, ela podia comprar, tinha os seus guardados. Não era baratinho também, mas o menino merecia. Ia demorar pra poder usar, mas era um sonho aqueles lápis, vinham em uma caixa de metal com cada um desenhado na capa. O patrãozinho saberia fazer desenhos bonitos com eles, coloridos. Suas mãos agora duras não dariam conta de pegar num lápis, faltavam-lhe firmeza e destreza.
Continuar lendoÀs 12:20 a luz do sol bate inclemente, fazendo com que a sombra flutue deslocada do corpo, que se move com hesitação. A ilusão da luz faz acreditar que são quatro as pernas, em vez das duas, delgadas, que tentam escalar a parede lisa. Ela tenta e cai, tenta e cai…
Continuar lendoEra dia de entrega. Apesar da idade avançada, gostava de fazer pessoalmente. Gostava sobretudo de entregar sapatos para noivos. O casal de hoje conhecia desde criança e, se não estava enganado, havia comparecido ao batizado de um deles. (…) Aquela altura da vida, e tendo visto tantas idas e vindas, se sentia à vontade e obrigado a dar um conselho ou dois.
Continuar lendoApenas um sonho, nada mais. Foi o que a mãe de Ofélia afirmara após ouvir seu relato ao despertar. Ela preferia acreditar nisso, entretanto a dúvida persistia: será mesmo? Quando na noite seguinte acordou sobressaltada com a mesma cena, entendeu não ser aquilo mera coincidência, teria de buscar o significado daquele sonho: um homem sem cabeça pedindo para que lhe acendesse uma vela…
Continuar lendoHoje lembrei-me das borboletas amarelas. Aquelas, que costumavam visitar a minha e a sua janela e batiam levemente as asas nos vidros. Você se lembra de que roçavam nossa face quando abríamos as vidraças para que o vento nos revoasse os cabelos, nos fechasse os olhos e nos fizesse sorrir? Havia as que entravam dentro de casa tornando a sala cheia da luz que o amarelo traz…
Continuar lendoTenho um amante imaginário, Saul. Não faço ideia da razão do nome bíblico, mas Saul, de fato, bem poderia ser um homem do deserto, com
Continuar lendoNelo é meu amigo de sempre, aquele que costumamos chamar de melhor amigo, irmão, confidente confiável. Acho que todos deveriam ter um amigo assim. Uma
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