Mineiro de Juiz de Fora, nascido em 1948, José Carlos Peliano é doutor em Economia pela UNICAMP, trabalhou no IPEA, na Universidade de Brasília, no CNPQ, é convidado para palestras, cursos, tem uma longa lista de publicações técnicas e…é poeta. Poeta e escritor, sim, daqueles que se inspiram em jabuticabeiras, caixas vazias, quintais e ganham prêmios. Seu livro Vadândora, publicado pela editora Patuá, foi primeiro colocado no Prêmio Jorge de Lima de Poesia, UBE, em 1994. Dois Oceanos, edição da Bárbara Bela Editora, Brasília, primeiro lugar na Bolsa Brasília de Produção Literária, em 1998. Mais recente, o conto O lago que para no ar ganhou menção honrosa no Concurso do Sindicato dos Escritores do DF, em 2021. Tem dois livros infantis publicados também pela Patuá, O menino do bandolim e A casa voadora, com ilustrações da filha, a designer gráfica Adriana Peliano, criadora da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, também ganhadora de dois Jabutis, porque essa paixão é coisa de família.
Lá estava, um a mais na procissão de dias, acocorada, cotovelos nos joelhos, mãos apoiando a cabeça, parecia corcova de cupinzeiro, imóvel, olhar fixo, onde? Nem a respiração preguiçosa lhe movia, tampouco o friozinho conseguia tirar dela alguns arrepios, manhãzinha bem cedo, somente ela e alguns quero-queros trocando passos pela beira do lago, encoberto por uma larga e rala cobertura, qual algodão doce.
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Entrou apressado na garagem, chegou à porta do carro, enfiou a mão esquerda no
bolso da calça para retirar a chave, entre as chaves do escritório, a de casa e o abridor do portão automático, achou-a, pegou-a, ia retirá-la, algo a travou, percebeu que a mão não conseguia sair, achou que tinha engordado e a calça não dava mais conta de seu corpo da cintura para baixo.
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A lâmpada acesa do corredor trazia seus braços até o aconchego da cama de Clarita dando-lhe a proteção diária de todas as noites. Temia o escuro e não dormia de outro jeito, de jeito nenhum, nem lhe oferecendo estórias, de Alice, da Caronchinha, de Saci, da Vaca Vitória, do Peter Pan, nem chocolate quente, televisão sobre a cômoda, um presentinho ou outro, bom de fato, ou sem fato, nada. Nada a demovia do temor de ficar sozinha no escuro da noite em seu quarto, mesmo protegida pelas cobertas ou seus pais, amigos, bichos de pelúcia.
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Como um rio sem margem vai a vida
dos úteros sai em águas correntes
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Segundo essa interpretação, portanto, cada e todo livro é oferecido e trazido pela memória aos becos e ruelas da recordação e/ou da imaginação povoadas pela vida afora. Se vai ser levado ao público ou não depende de cada um. Seguindo adiante, vive-se dessa forma numa monumental biblioteca universal onde é guardada a memória expressa ou não de toda a existência da vida humana e do meio ambiente.
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Um poema me chamou agora há pouco
acenou com o impulso e suas vibrações/me preparei com os dedos atentos/o laptop de boca aberta sorrindo/mas ele ainda não me veio
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Esta mãe não me tomou pelas mãos
e me fez dono do mundo
que me veio pelos meus pés de vento
e olhos de tela de cinema
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Meu telhado não é de vidro, mas minha janela é. Meus poemas não são de vidro, mas minha inspiração é. O que escrevo vem não sei de onde, qual a dimensão que me envia, onde estão os pensamentos, que energia me leva a correr e anotar o que me chega antes que eu perca o bonde e a esperança de recordar. Do jeito que me veem podem revelar muito ou se perder pedaço a pedaço.
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Parafraseando Fernando Pessoa com seu magnífico verso “navegar é preciso, viver não é preciso”, pode-se dizer com a mesma força poética que “sonhar é preciso, viver não é preciso”. Ou então se sucumbe! O sonho dormido ou acordado é a válvula de escape da pressão diária da vida de cada um.
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Meus ouvidos não escutam as explosões de bombas, gritos, gemidos e choros/meus olhos sequer se enfumaçam ou se entulham de escombros, mutilações, fumaças tóxicas/meu nariz escapa do cheiro e do pavor da morte/e da lenta e torturante agonia dos destroços humanos
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embrulho aberto, um mundo por ter dono
parava o tempo, doces fantasias
na tal data reinava um abandono
longe de tudo e perto das magias
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Guardo de seu poema Madrugada Camponesa o destaque para o brilho incomparável dos versos que tão bem sabia sentir, conceber e construir como “agora vale a verdade, que se constrói dia a dia, feita de amor e de pão” e “lavro a luz dentro da cana, minha alma no seu pendão”.
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