Clube dos Escritores 50+ Lourdes Gutierres Nem isto nem aquilo

Nem isto nem aquilo, Lourdes Gutierres

                                                                           Assim que me calei,
                                                                 uma voz chegou aos meus ouvidos:
                                                                “Se te tornas isto, serás aquilo”.

RUMI

                                                                                                                                                                                                                         

Leio suas antigas anotações como um explorador de território devastado. Em  traços difusos, busco vestígios que expliquem o ocorrido, talvez seja  possível reverter o quadro atual. Em sua escrita, não transparece a frustação, no entanto, o que ela previra, não aconteceu. Seus desejos foram barrados por comportas jamais abertas. O paraíso projetado não seria alcançado, mas ela não sabia disso e a cada dia plantava sonhos que não germinariam. Dormia abraçada à revista com a reportagem sobre o Taj Mahal. Iria passear naqueles jardins e sentir o pulsar das pedras preciosas no mármore branco, porque lá, naquele centro profundo de afeto candente, o amor é eterno.

Sem decifrar trombetas de apocalipse, olhava com confiança rumo ao futuro. Procurou se afastar de tudo que lhe parecia ultrajante.  Atenta à elegância, em festas, mantinha o chapéu sempre preso ao coque do cabelo. Jamais palavras obscenas para alguém, por pior que fosse a ofensa, nem comentários sobre deficiência física ou doenças incuráveis. A vida como um tabuleiro de xadrez, cada peça sendo movida na crença da vitória ao final.

Tento capturar o momento em que se deu o revés. Quando a desesperança ofuscou sonhos? Soube que um dia, ao subir a escadaria da igreja para o casamento da amiga, seu chapéu fora levado pelo vento e seguiu sem rumo, nunca mais foi encontrado. Incidente banal, mas que poderia ter desencadeado nela certo temor por armadilhas imprecisas. A campainha da casa toca, ela não atende sem antes observar por alguma fresta. Ao toque do telefone, reluta. A correspondência é lida com tremor nas mãos. Só por instantes as janelas permanecem abertas. As idas à igreja do bairro tornam-se mais frequentes. Paredes e móveis da casa passam a ser adornados por santos de proteção.    

Sob o mesmo teto, convivemos por longo tempo, cada qual ao seu jeito  traçamos nossas formas de romper horizontes. No traçado dela, despontaria a trajetória que se acreditava de toda mulher – casamento com um bom moço e criação de filhos saudáveis. Projeto de vida que exigiu esforço e dedicação, haveria de cuidar de tudo, então, sempre novos cursos: culinária, corte e costura, decoração.  Não se contentava com o básico, buscando aprimoramento tornou-se confeiteira de mão cheia. Bolos recheados com frutas e cremes, cobertos por florzinhas de massa colorida, docinhos de vários tipos encantavam nossas festas. Nunca casou. Desse tipo de trajetória, procurei distância. Não sem muitos conflitos e estranhamentos. Nossa mãe sempre ameaçava cortar minhas asas – essa menina tem mania de liberdade, dizia.

Hoje, sinto a memória de minha irmã povoada por mortos, desastres, rompimentos, paisagens inóspitas, como se não houvesse nenhuma boa lembrança para encontrar consolo. Que voz é essa que dita regras do seu viver? Desconheço. Também a ciência não é capaz de respostas. Nesse labirinto escuro no qual habita, percebo que a entrada, por vezes, é aberta pela presença de alguma criança, mesmo que essa a olhe com certo estranhamento; no riso, no gesto infantil o alento, a alegria.  Talvez se projete em seu tempo de brincar, por mais longínquo que esteja. Por segundos, sustenta seu olhar na inocência, para logo em seguida recolher-se em sua caverna de sonhos adormecidos. Nela permanece ausente de si, do mundo ao seu redor.  

Quanto a mim, tateio sombras na escuridão de sua caverna.  

7 comentários

  1. Lourdes, que belo texto para tão dura realidade….
    Desejo que a escrita e a reflexão nela contida sublimem a dor dessa experiência que a vida lhe impôs.
    Coragem

  2. Lourdes, gostei muito do seu conto. Além de muito bem escrito, ele me causou um estranhamento digno dos grandes textos literários. Não saber exatamente o que afligia essa mulher foi fundamental trazer uma certa sedução ao conto. Parabéns!

  3. A meu ver o texto reflete sentimentos de tristeza e dor que pensamos existir no íntimo de um ser humano. Penso, também, que o assim atingido pode se encontrar num processo de evolução espiritual, uma vez que a ciência não encontrou até o momento uma explicação para esse estado psíquico

  4. Lourdes, seu lindo e emocionado texto é simplesmente pungente. A vida, tão maravilhosa e cheia de sonhos e esperanças, por vezes mostra seu lado cruel. Mas escritoras como você conseguem transformá-lo em Arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *