Clube dos Escritores 50+ Bettina Lenci A bengala - imagem criada por IA

A bengala, crônica de Bettina Lenci

O mundo inverteu-se! O que era não é mais! 

Sei que tal conclusão, sendo afirmada com tanta ênfase, ou é idiota ou nasce nas entranhas de uma senhora de idade avançada.  Mas, sejamos claros: o que no passado estava na cara, hoje não está mais!

Tenho 80 anos e estou perfeitamente apta a viajar e a passar meu cartão de crédito sem ser enganada por algum vendedor espertinho. Verdade que subo ou desço com mais vagar as escadarias dos museus e as escadarias de mármore   das catedrais barrocas, preciso de óculos que não acho de imediato na bolsa – cheia de balinhas, caso tenha fome, remédios para eventualidades que raramente ocorrem.

Por óbvio, não pensei em mencionar aqui os surrealistas avanços tecnológicos. Contudo, sinto-me impelida a alertar a minha comunidade de igual faixa etária sobre dois pontos. Caso estejam planejando uma viagem na qual terão que embarcar em qualquer transporte que os levará ao lugar que escolheram para chegar ou se encontrem na situação de perda do seu cartão de crédito, meu conselho amigo: façam-se acompanhar por um jovem vezeiro em whatsapp e google maps. Desnecessário ele ser versado em idiomas estrangeiros. Para tal existe o conversor que traduz suas necessidades. Quero dizer, este acompanhante pode ser mudo e surdo, pois recebe a resposta na sua língua. (Curiosamente, observei que ele, com toda a sua sabedoria tecnológica, também encontra dificuldades de entender as contínuas  mudanças que ocorrem no seu definitivamente insubstituível celular).

Salvo algum esquecimento de transtornos ocorridos nesta minha viagem ao exterior, chego no ponto onde afirmei que antigamente estava tudo na cara e hoje não está mais. Explico:

Tenho a boa sorte de não aparentar meus 80 anos! Este fato, no lugar de me alegrar como era de se esperar, me aborrece. Pois, quando peço alguma facilidade devido a minha dificuldade para isso ou aquilo, já vou avisando minha idade para ser atendida com mais boa vontade.   Mas ouço invariavelmente:  “ a senhora deve estar brincando”! Entre um sorriso amarelo e agradecido, espero meu pedido ser atendido com o devido respeito. 

Ou então ouço: “Mentira sua”! Aí me ofendo de verdade! Ora bolas!

Assim sendo, decidi levar comigo, na próxima viagem, a bengala que herdei de meu avô. Linda antiguidade, cuja cabeça é uma cobra de marfim com dois pontos de vidro vermelho no lugar dos seus olhos.

6 comentários

  1. Ah, Bettina! Eu adoro suas histórias, confesso q tb arregalei os olhos ao saber da sua idade. Não aparenta mesmo. Se bem que hoje em dia tem cada mulher e homem bacana com 85, 90, 100!
    Temos que mudar essa visão tb dos números que se aderem ano a ano à nossa vida. Idade não é um amontoado de números. Quero conhecer essa bengala. Mas já te aviso, estava eu em Lisboa com minha bengala pós rompimento do ligamento do joelho, e nenhuma alma se compadeceu de mim. Tempos estranhos… beijos

  2. Grande Bettina, realmente você não aparenta essa idade, ainda mais com crônicas leves e saborosas como essa. A bengala pode ser uma boa ideia para impor mais respeito, principalmente nos odiosos terminais aeroportuários. Talvez até seja possível acoplar a ela algum sensor com bluetooth para permitir falar, receber mensagens, saber a previsão do tempo…

  3. gente amiga,

    Muito obrigada por “me” lerem.
    Por gostarem e sobretudo por deixarem uma lembrança de vocês aqui neste espaço.
    Adoro contar histórias. Observar o mundo e as gentes dentro dele. São tão diferentes
    uma das outras apesar de que cheguei a uma conclusão: ao escolhermos companheiros (as) p nos casarmos , acoplar-nos, ficar com intençao de mais tempo, observem se nao lembram com vosso pai, mãe, ou irmão. Observem se nao acabamos escolhendo pessoas parecidas com eles, fisicamente, para amar!!
    Verdade! observem!

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